sábado, 14 de novembro de 2009

Reflexo



Eu sou, meu amor
O que tu és:
Sou solidão
E companhia
Sou desespero
E calmaria
Sou tua glória
E teu revés.

Eu serei, meu amor
O que tu fores:
Serei angústia
E paz
Serei lágrima
E sorriso
Serei espinho
E flores.

Eu quero, meu amor
O que tu queres
E se um dia
Não mais me quiseres
Não mais serei eu
E serei tu na despedida.
Que queres, meu amor
Se pra mim
És tu a vida?

Os Versos que Te Fiz



Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem para te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim para te oferecer

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda.
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

* Florbela Espanca

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Fanatismo



Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
«Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!...»

* Florbela Espanca

Florbela Espanca (Vila Viçosa, 8 de Dezembro de 1894 — Matosinhos, 8 de Dezembro de 1930), batizada com o nome Flor Bela de Alma da Conceição, foi uma poetisa portuguesa. A sua vida de trinta e seis anos foi tumultuosa, inquieta e cheia de sofrimentos íntimos que a autora soube transformar em poesia da mais alta qualidade, carregada de erotização e feminilidade.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Ninguém


Que ninguém me veja.
Falo dos teus olhos,
Que me vêem melhor do que eu sou.
Que ninguém me escute.
Falo da tua voz,
Que me dizem palavras que eu não mereço.
Que ninguém me pegue.
Falo do teu toque,
Que me sente mais do que eu me sinto.
Que ninguém me abrace.
Falo do teu corpo,
Que completa o que faltava no meu.
Que ninguém te veja, te escute, te pegue, te toque ou te abrace.
Só eu.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Ilusão


"E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente.
Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram.
Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."

Autor Desconhecido

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Cântico II



Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens...
Não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabes que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade.
És tu.

Cecília Meireles

domingo, 1 de novembro de 2009

Beija-flor


Eu te amo
Como o beija-flor ama sua flor.
Com o mesmo empenho que o João-de-barro
Carrega a terra e constrói o seu ninho de amor.
Eu te amo
Como a brisa da praia empurra suas ondas pra areia,
E o mar traz de volta.
Como a mesma brisa empurra as velas dos barcos pra longe,
Mas sempre traz de volta o pescador.
Eu te amo
Como a lua que carrega a maré para onde for,
Como o sol que aquece seu mundo inteiro com seu calor.
Eu te amo
Como tu me amas com teu amor.
Eu te amo
Como eu te amo e com todo meu amor.